Infra-BR: gestores saem do 'escuro' sobre energia e conectividade

Brasília, 19 de março de 2026

Lançado na última segunda-feira (16), o Índice Confea de Infraestrutura do Brasil (Infra-BR) reúne, em uma plataforma digital, indicadores que ajudam a mapear as condições da infraestrutura nos 27 estados brasileiros. Desenvolvido pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), o índice transforma dados técnicos em informações acessíveis, permitindo que gestores públicos, profissionais da área tecnológica e cidadãos comparem o desempenho das unidades da federação e identifiquem desafios estruturais.

O Infra-BR está organizado em seis eixos temáticos — energia e conectividade; mobilidade; água; saneamento básico; meio ambiente e sustentabilidade; e bem-estar social e cidadania — que procuram traduzir, por meio de indicadores, diferentes dimensões da infraestrutura nacional. Elaborado em parceria com a mesma equipe de pesquisadores responsável pelo IPS-Brasil e inspirado em experiências internacionais, o índice pretende contribuir para decisões mais qualificadas no planejamento de investimentos.

Segundo o presidente do Confea, eng. telecom. Vinicius Marchese, a ferramenta busca ampliar a capacidade de planejamento ao transformar dados dispersos em um diagnóstico comparável entre os estados. “A infraestrutura é um desafio, mas o maior obstáculo é identificar onde aplicar os recursos: em qual estado, em qual segmento. Com base em indicadores, será possível distinguir o que é urgente do que pode ser planejado no médio prazo, fortalecendo a lógica de priorização baseada em evidências”, afirma.

Para o engenheiro eletricista Igor Braga Martins, que participou da construção dos indicadores de energia e conectividade, o Infra-BR é uma ferramenta poderosa para o curto e o longo prazo, pois equilibra vários indicadores. No curto prazo, explica, é essencial para a gestão de crises e correção de gargalos imediatos, como identificar municípios com altas taxas de obras paralisadas ou falhas críticas na distribuição de energia e água.

“Já para o longo prazo, o Infra-BR subsidia o planejamento estratégico e a modelagem de cenários. Ao permitir a comparabilidade temporal, ele ajuda a transformar projetos de governo em políticas de Estado, garantindo que o desenvolvimento da infraestrutura — que naturalmente exige ciclos longos de execução — não sejam interrompidos por trocas de gestão. Ele oferece a base técnica para que o crescimento do país seja planejado de forma sistêmica e contínua”, finaliza.

Infraestrutura essencial para a economia

Entre os seis eixos do índice, o de energia e conectividade reúne indicadores que ajudam a compreender dois dos principais suportes da economia contemporânea: o fornecimento de eletricidade e o acesso às redes de telecomunicações. Sem essas duas bases, atividades produtivas, serviços públicos e a própria vida cotidiana enfrentam limitações que afetam diretamente o desenvolvimento regional.

O eixo foi estruturado a partir de quatro componentes principais: geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, além de conectividade digital. A ideia é captar tanto a capacidade instalada dos sistemas quanto a qualidade do serviço prestado à população. “O índice traduz dados complexos da Aneel e do IBGE em métricas claras de desempenho, como a frequência e duração de interrupções de energia (FEC e DEC) e a qualidade da banda larga.  

Para o gestor, isso significa sair do 'escuro' nas decisões de investimento. O índice permite identificar, por exemplo, se a baixa produtividade de uma região decorre de um 'apagão digital' ou de uma infraestrutura de transmissão subdimensionada. Com fontes públicas e confiáveis, o gestor pode fundamentar a alocação de recursos em necessidades reais, utilizando evidências objetivas para atrair parcerias e novos empreendimentos que dependem de energia estável e conectividade de alta capacidade para operar”, elucida Igor Braga Martins.

No caso da distribuição de energia, o índice observa o número de unidades consumidoras atendidas e dois indicadores clássicos do setor: a Frequência Equivalente de Interrupção (FEC) e a Duração Equivalente de Interrupção (DEC). Enquanto o primeiro mede quantas vezes, em média, ocorre interrupção no fornecimento, o segundo indica quanto tempo os usuários permanecem sem energia. Juntos, esses dados ajudam a dimensionar a confiabilidade do sistema elétrico em cada território.

A dimensão de geração considera fatores como a diversidade de fontes da matriz elétrica, a potência outorgada das usinas e a presença de micro e minigeração distribuída. Esses elementos revelam a capacidade instalada e o grau de diversificação tecnológica do sistema, além de apontar o potencial de autoprodução energética em diferentes regiões — aspecto cada vez mais relevante diante da transição energética e da busca por matrizes de baixo carbono.

Já o componente de transmissão analisa a capacidade de transformação e a extensão das linhas que transportam energia pelo país. Esses dados ajudam a identificar a aptidão do sistema para integrar regiões produtoras e consumidoras e para evitar gargalos que possam comprometer a segurança do abastecimento.

No campo da conectividade digital, o índice incorpora indicadores que buscam medir desde a presença de infraestrutura de telecomunicações até o acesso efetivo à internet. São considerados, por exemplo, registros de ausência de sinal de telefonia celular — os chamados apagões digitais —, carência de infraestrutura de telecomunicações, qualidade da banda larga e níveis de inclusão digital.

A incorporação desses fatores reflete a crescente interdependência entre infraestrutura energética e digital. A expansão da economia baseada em dados, a instalação de centros de processamento e o avanço de tecnologias como inteligência artificial tendem a aumentar a demanda por eletricidade, tornando cada vez mais necessário planejar a expansão da conectividade em sintonia com a disponibilidade de energia. “O maior desafio técnico na criação desses indicadores foi a curadoria e a harmonização dos dados para garantir a validade e a comparabilidade entre as 27 unidades da federação. Não bastava apenas coletar informações; foi necessário aplicar filtros rigorosos para assegurar que os dados fossem secundários, de fontes oficiais (como Aneel, Anatel e IBGE) e que tivessem periodicidade conhecida” conta Igor.

Indicadores ajudam a orientar decisões

“Indicadores revelam disparidades territoriais de forma objetiva, permitindo identificar regiões com maiores déficits de infraestrutura e acesso a serviços. Ao mesmo tempo, não impõem soluções padronizadas, em outras palavras, combinam coordenação nacional com flexibilidade local”, aponta Telma Hoyler, doutora em Ciência Política e integrante da equipe técnica que elaborou o Relatório Metodológico do InfraBR.

Ao reunir essas informações em um único eixo, o Infra-BR busca oferecer uma base comparável para orientar decisões sobre expansão de redes elétricas ou de telecomunicações. A lógica é que, ao criar métricas claras de aferição da infraestrutura, governos e gestores possam ampliar a capacidade de priorizar investimentos, planejar soluções e monitorar resultados.

Ainda assim, os próprios pesquisadores destacam que os indicadores precisam ser interpretados com cautela. Os dados de geração, transmissão e distribuição, por exemplo, captam sobretudo a capacidade instalada e o desempenho médio do sistema, mas não refletem completamente fatores como redundância das redes, qualidade da manutenção ou rapidez na recomposição do serviço após falhas.

Da mesma forma, a diversidade da matriz elétrica ou a potência outorgada das usinas não indicam necessariamente a disponibilidade efetiva de energia ao longo do tempo, já que fatores hidrológicos, sazonalidade e restrições operacionais podem afetar a geração.

Na área de conectividade, indicadores baseados apenas na presença de infraestrutura ou no acesso à internet também não captam integralmente aspectos como estabilidade da conexão, latência, velocidade efetiva ou custo relativo para os usuários — fatores que influenciam diretamente a qualidade do serviço.

Plataforma de consulta

Os dados do Infra-BR estão disponíveis em um site com painel interativo que permite visualizar e comparar o desempenho dos estados brasileiros em diferentes dimensões da infraestrutura. A plataforma oferece rankings, mapas e gráficos que ajudam a identificar desigualdades regionais e acompanhar a evolução dos indicadores ao longo do tempo.

Também é possível baixar os dados em formato CSV e fazer o download dos mapas com a identidade visual do índice, o que facilita o uso das informações por pesquisadores, gestores públicos e profissionais da área tecnológica.

O acesso à plataforma pode ser feito pelo endereço www.infrabr.org.br.

Beatriz Leal
Equipe de Comunicação do Confea
Imagens: FreePik